No último fim de semana aconteceu em Barcelona mais uma edição do 48h Open House Barcelona, um festival de arquitetura que abre ao público diversos edifícios — históricos e contemporâneos — que normalmente não são visitáveis.
Eu, que sou muito adepta de turistar na própria cidade, aproveitei o domingo de outono para visitar alguns edifícios. Foquei naqueles localizados na Avenida Diagonal, na região L’Esquerra de l’Eixample, uma zona central que concentra boa parte dos edifícios burgueses modernistas.
Os edifícios visitados foram:
- Casa Sayrach (Manuel Sayrach i Carreras, 1918)
- Casa Montserrat (Manuel Sayrach i Carreras, 1920–1926)
- Edifici B. Mas de Miquel (Domènec Sugrañes i Gras, 1929)
Todos são edifícios residenciais e comerciais, por isso a visita era restrita ao vestíbulo.
Casa Sayrach
Um surpreendente exemplo do Modernisme catalão tardio, a Casa Sayrach foi construída entre 1915 e 1918, na esquina da antiga avenida Argüelles (atual Avenida Diagonal, 423–425) e Carrer d’Enric Granados.


O projeto é de Manuel Sayrach i Carreras, que o concebeu a pedido do pai, Miguel Sayrach Calabaza, antes mesmo de concluir sua formação em arquitetura.
Embora o Modernisme já estivesse em declínio, a influência gaudiniana é evidente: a fachada apresenta formas onduladas e polidas, com ornamentação discreta que lembra La Pedrera. Por dentro, revela-se uma verdadeira fantasia marítima de atmosfera novecentista.





Segundo o guia que conduziu a visita (em catalão, portanto compreendi cerca de 60%), o vestíbulo foi concebido como uma nave de igreja, cercada por colunas arredondadas e pequenos “átrios” laterais que dão acesso a outras áreas.
As paredes exibem texturas que lembram os desenhos deixados pelo mar na areia e formas inspiradas em animais marinhos — estrelas-do-mar, bolachas-do-mar, ouriços e arraias…



O famoso Panot Gaudí que reveste as calçadas do Passeig de Gracia, criados por Gaudi em 1904 e produzido pela Escofet desde então, onde podermos ver uma estrela-do-mar, uma concha e uma alga marinha.
Segundo o guia, da nave central ao espaço elevado da escada e do elevador, ocorre “uma passagem do mar à terra”. Dois elementos se destacam nessa transição: o arco com uma espiral vazada que lembra a carcaça de um animal marinho fantástico, e o corrimão da escada, forjado como uma rede de pesca.





Achei muito curioso como muitos detalhes me fizeram lembrar das das ilustrações de A Pequena Sereia feitas por Edmund Dulac (1911).


Casa Montserrat

A Casa Montserrat está ao lado da Casa Sayrach, com entrada pela rua lateral Carrer d’Enric Granados, e foi construída entre 1920 e 1926 como presente de casamento de Manuel Sayrach para sua noiva, Montserrat Fatjó dels Xiprers i Pi.
As duas casas são separadas por esse cordão de contas em relevo na fachada.
Também em estilo Modernisme tardio, a obra mantém a temática marítima, mas adquire um tom mais filosófico e literário: as paredes são decoradas pinturas imitando cortinas de teatro, numa possível referência ao dramaturgo espanhol Pedro Calderón de la Barca, autor de El gran teatro del mundo (1635), que dizia: “La vida es una comedia divina; al cerrarse el telón, la vida termina.”

Esse vestíbulo, muito mais íntimo que o da Casa Sayrach — o que torna até difícil fotografar — tem o teto coberto por um alto-relevo em forma de estrela-do-mar, colunas que lembram algas, e as iniciais dos noivos — “MM” — gravadas em alguns pontos.


Edifici B. Mas de Miquel
Do outro lado da Avinguda Diagonal fica o Edifici B. Mas de Miquel, de Domènec Sugrañes i Gras (1929) — um representante do Noucentisme, movimento que sucedeu o Modernisme e resgatou valores clássicos, com estética mais racional e sóbria.



Sugrañes foi colaborador direto de Antoni Gaudí, tendo trabalhado na Casa Milà e assumido a direção da Sagrada Família após a morte do mestre.
O edifício tem um belíssimo átrio central elíptico, visível a partir da entrada. O olhar é naturalmente conduzido para cima, até a claraboia que coroa os seis andares.


O efeito de ilusão de ótica, criado pelas colunas ao redor do vão central, dá a sensação de afunilamento em direção à luz, com forte influência da obra do arquiteto italiano Francesco Borromini. Fiz um post no meu Instagram com alguns vídeos que ajudam a ter uma noção melhor do impacto dessa arquitetura.
Para quem quiser conhecer essas casas — ao menos por fora — já deixe salvo os endereços no seu Google Maps.
📍Casa Sayrach – Av. Diagonal 423–425, Eixample Esquerra
📍Casa Montserrat – Carrer d’Enric Granados 153–155
📍Edificio B. Mas de Miquel – Av. Diagonal 520, esquina com Carrer Tuset
E caso você esteja em Barcelona em outubro do próximo ano, fique de olho na programação do evento 48h Open House Barcelona
😉
